domingo, 21 de fevereiro de 2010

Sobre deuses e rezas-Rubem Alves


Perdida no meio dos viajantes que enchiam o aeroporto, ela era uma figura destoante. A roupa largada, os passos pesados, uma sacola de plástico pendurada numa das mãos – esses sinais diziam que ela não mais ligava para a sua condição de mulher: não se importava com ser bonita. Pensei mesmo que se tratava de uma freira. Seu comportamento era curioso: dirigia-se às pessoas, falava por alguns momentos e, como não lhe prestassem atenção, procurava outras com quem falar. Quando vi que tinha uma Bíblia na mão, compreendi tudo: ela se imaginava possuidora de conhecimentos sobre Deus que os outros não possuíam e tratava de salvar-lhes a alma.

Meu caminho me obrigou a passar perto dela e, quando olhei de perto para o seu rosto, levei um susto: eu o reconheci de outros tempos, quando era uma moça bonita que ria e brincava e para quem olhávamos com olhares de cobiça.

Não resisti e chamei alto o seu nome. Ela se espantou, olhou-me com um olhar interrogativo, não me reconheceu. Com razão. Os muitos anos deixam marcas no rosto

- Eu sou o Rubem!

Seu rosto se iluminou pela lembrança, sorriu, e pensei que poderíamos nos assentar e conversar sobre as nossas vidas. Mas a preocupação dela com a minha alma não permitia essas perdas de tempo com conversas fiada. E tratou de verificar se o meu passaporte para a eternidade estava em ordem:

- Você continua firme na fé! – ela afirmou interrogativamente.

- Mas de jeito nenhum – respondo – Então você deixou de ler a Bíblia? Pois lá está dito que Deus é espírito, vento impetuoso que sopra em todo lugar, o mesmo vento que ele soprou dentro da gente para que respirássemos, fôssemos leves e pudéssemos voar. Quem está no vento não pode estar firme. Firmes são as pedras, as tartarugas, as âncoras. Você já viu um papagaio firme? Papagaio firme é papagaio no chão, não voa. Pois eu estou mais é como o urubu, lá nas alturas, flutuando ao sabor do imprevisível Vento Sagrado, sem firmeza alguma, rodando em largos círculos.

Ela ficou perdida – acho que nunca havia ouvido resposta tão estranha. Mudou de tática e tentou pegar a minha alma do outro lado. Desatou a falar de Deus, informou-me que ele é maravilhoso etc., como estivesse no púlpito em celebração de domingo.

Refuguei:

- Acho que quem não esta firme em Deus é você – eu disse. – Olha, passei a noite toda respirando, estou respirando desde que acordei e juro que agora é a primeira vez que penso no ar. Não pensei nem falei no ar, porque somos bons amigos. Ele entra e sai do meu corpo quando quer, sem pedir licença. Mas a historia seria outra se eu estivesse com asma, os brônquios apertados, o ar sem jeito de entrar, ou como naquele anúncio antigo do xarope Bromil: o coitado do homem sufocado por uma mordaça, gritando pelo ar que lhe faltava. Por via das dúvidas até andaria com uma garrafa de oxigênio na bagagem, para qualquer emergência. Pois Deus é como o ar. Quando a gente está em boas relações com ele, não é preciso falar. Mas, quando a gente está atacado de asma, então é preciso ficar gritando por Deus. Do jeito como o asmático invoca o ar. Quem fala com Deus o tempo todo é asmático espiritual. E é por isso que anda sempre com Deus engarrafado em Bíblia e noutros livros e coisas de função parecida. Só que o vento não pode ser engarrafado...

Aí ela viu que minha alma estava perdida mesmo e, como consolo, fez um sinal de adeus e disse que oraria muito por mim. Então eu protestei, implorei que não o fizesse. Disse-lhe que eu tinha medo de que Deus ficasse ofendido. Pois há rezas e orações que são ofensas. É óbvio: se vou lá, bater às portas de Deus, pedindo que ele tenha dó de alguém, estou lhe imputando duas imperfeições que, se fosse comigo, me deixariam muito bravo. Primeiro, estou dizendo que não acredito no amor dele. Deve ser meio fraquinho, sem iniciativa, preguiçoso à espera do meu cutucão. Se eu não der a minha cutucada, Deus não se mexe. E isso não é coisa de ofender Deus? Segundo, estou sugerindo que ele deve andar meio esquecido, desmemoriado, necessitando de um secretário que lhe lembre das suas obrigações. E trato de, diariamente, apresentar-lhe a sua agenda de trabalho. Mas está lá nos salmos e nos evangelhos que Deus sabe tudo antes que a gente fale qualquer coisa. Ora, se a gente fica no falatório, é porque não acredita nisso. Não acredito em oração em que a gente fala e Deus escuta. Acredito mesmo é na oração em que a gente fica quieto pra ouvir a voz que se faz ouvir no meio do silencio.

- Veja você. Tenho um filho que estudava longe. Eu gostava dele. Ele gostava de mim. De vez em quando a gente se falava pelo telefone. E o dinheiro da mesada ia sempre, com telefonema ou sem telefonema. Agora imagine: de repente começo a receber telefonemas dele três vezes por dia e mensagens por sedex, cartas, telegramas louvando o meu amor, agradecendo a minha generosidade... Você acha que isso me faria feliz? De jeito nenhum. Concluiria que o meu pobre filho havia endoidecido e estava acometido de um terrível medo de que eu o abandonasse. Pois é assim mesmo com Deus: quem fica o dia inteiro atrás dele, com falatório, é porque desconfia dele. Mas o pior é o gosto estético que assim se imputa a Deus. Uma pessoa que gosta de passar o dia inteiro ouvindo os outros repetir as mesmas coisas, as mesmas palavras, as mesmas rezas, pela eternidade afora, não deve ser muito boa da cabeça. Para mim isso é o inferno. Quem reza demais acha que Deus não funciona bem da cabeça. Acho que ele ficaria mais feliz se, em vez do meu falatório, eu lhe oferecesse uma sonata de Mozart ou um poema da Adélia...

Mas aí o alto-falante chamou meu vôo, tive de me despedir e imagino que ela tenha ficado aflita, temerosa de que Deus derrubasse o meu avião com um raio. Mal sabia ela que Deus nem mesmo havia ouvido a nossa conversa, pois, cansado das doidices dos adultos, ele foge sempre que vê dois deles conversando e se esconde, disfarçado de criança.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Guiado pela intuição e pelo coração

Sou completamente avesso a seguir as receitas prontas ao pé da letra, mas o tempo domou o meu ego e aprendi as fazer as minhas próprias, usando o que me cabe em cada uma que me apresentam.
A noite escura me acalma, porque é nela que estou em minha companhia.
Hoje sei que nada me falta, se tenho a mim mesmo.
E que tudo que possa ter além, é para acrescentar, crescer, melhorar.
Policío minhas expectativas, mas as tenho, sem me sentir culpado por isso.
Sempre vi as coisas desde garoto, de uma forma abrangente, olhando o mundo como uma cabeça de alfinete, porque a bola é o sol.
Mas hoje sei que não adianta ver grande apenas, precisa-se pensar grande, sem medo.
Também sei hoje, que a felicidade não é um estado de satisfação, mas uma coleção de bons momentos e sentir em nossas mãos as rédeas de nossas vidas.
Sou um eterno insatisfeito, porque se eu me acomodar, não serei mais eu, serei um rascunho do que posso ser.
Nem mais, nem menos, como a noite escura nos revela, este sou eu.


"O amor sem fim, não esconde o medo de ser completo e imperfeito." (Frejat)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

A Paixão-Teoria do "Memory Card"



São exatamente 2:21 da manhã de sábado, fevereiro de 2010 .Queria ter um dedim de prosa cocéis.Gostaria de saber se por um acaso arguem ai ja desejou fortemente uma pessoa que abalou a sua vida?Se ja se apaixonou tão, mas tão bisurdamente que nao pensava em mais nada?Engraçado que parece que a pessoa não sai da gente.Agente não consegue visualizar o presente, o futuro...vivemos só de um passado.Mas por um outro lado,é incrivel como agente se mobiliza, se sente mais forte...ficamos que nem a Dilma quando é o Lula que esta nos apoiando.(uma piadinha so pra quebrar o clima kkkkk)Se achando a ultima bolachinha recheada do pacotinho.Mas a verdade é que estamos sempre nos apaixonando.E se por acaso agente se decepciona, o certo é levantarmos a cabeça.Sei que parece que fomos decepados, que uma parte do nosso corpo, claro que o coração, foi tirado da gente.Mas ele sempre volta literalmente bombando.É ai que deixo pra vocêis a minha tese de que a vida é um grande game.Um playstation de emoções e razões, e como no play você tem sempre um memory card...um cartão aonde você pode depois de um falso game over, voltar e começar a jogar novamente.E assim vc sempre fica na cabeça "Poxa? se eu entrar por ali, eu nao passo daquela fase" Então retorna a jogar e nao é que você passa da fase... mas logo em frente existe um outro caminho aonde tu nao passou e o falso game over reaparece.Quando nos decepcionamos na paixão é praticamente isso, vc fica achando que perdeu td, que o mundo desabou.Que nada meu amigo, você tem o memory card esqueceu?Nele você ja sabe aonde deve pisar com cuidado para o jogo da vida continuar.A vida é assim, nos apaixonamos, e sempre que nos machucamos dizemos "Não ,não vai acontecer comigo novamente, agora eu aprendi o jogo!"
Somos únicos quando amamos. E cada pessoa que amamos, amamos de modos diferentes porque também somos imprevisíveis.(Assim como o jogo) Não sermos redundantes no amor é nosso passaporte para a utopia da felicidade.Que seja utopia, mas a perseguição dela é mais interessante que os amores estabelecidos como regras a serem cumpridas só porque cabem bem junto à sociedade.
No amor, vale o risco, vale seguir o vento, o cheiro, o desejo.
Se se arrepender de algo, não tenha vergonha de voltar atrás.
É melhor ser sincero e encarar o medo, do que viver sofrendo com algo que poderia fazer e não fez por vergonha.
O amor é sem vergonha.

Deixo ai um video de Vinícius Cantuária e ate breve com mais um dedim de prosa!

O Verdadeiro Amor UAI!

Olha eu aqui Cumpadres.Na verdade decidi passar de novo pra deixar uma mensagem a respeito do verdadeiro amor.Mas nao vou me estender mto, pois ao inves de oceis lerem vou deixar um audio e um video que traduz a ideia que quero passar.Nois Caipira num tem mta distresa pra leitura sabe, entao vamos trabaiá com os "zovido" e com os "Zói" hj.Um forte abraço proceis, e agente vai prosiando qdo der.
P.S e se der vontade de chorar no vídeo,não se façam de valentões e valentonas nao uai..deve ser excesso de lagrimas...ou se nao a descurpinha famosa "É um sisco!" rsrsrsr


terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Enfim acabou o Carnaval-Agora a maioria ja usou "O Vale sacanagem"

Nao dúvido que em breve o governo estará distribuindo depois do "Bolsa Família", Bolsa Escola" Bolsa Cultura...o "Bolsa Sacanagem"
A pessoa pega o vale e vai pular os 04 dias e 04 noites de carnaval.
Vale td...Infidelidade,disputa pra ver quem beija mais,sexo sem amor, sem quimica sem tesão.Uma hipocrisia só uai.Depois na quarta feira ja estao todos de gravatas, de roupas brancas nos seus respectivos mundinhos , no sisteminha.Prontinhas pra casarem e constituirem ou continuarem a gerenciar suas familias.
Como diz o chico Buarque
Carnaval, Carnaval, eu fico triste qdo chega o carnaval"
Deixo aqui, dos nosso grande poeta do interior João Guimaraes Rosa, para que vocês refitam.Boa leitura proceis.Inté
PÍLULAS DO GRANDE SERTÃO

Coração de gente — o escuro, escuros.

Quem ama é sempre muito escravo, mas não obedece nunca de verdade.

Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal por principiar.

No sistema de jagunços, amigo era o braço, e o aço!

Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de
estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou — amigo — é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é.

O amor? Pássaro que põe ovos de ferro.

Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas.

A colheita é comum, mas o capinar é sozinho.

O diabo é às brutas; mas Deus é traiçoeiro!

O diabo na rua, no meio do redemunho.

O Arrenegado, o Cão, o Cramulhão, o Indivíduo, o Galhardo, o Pé-de-Pato, o Sujo, o Homem, o Tisnado, o Coxo, o Temba, o Azarape, o Coisa-Ruim, o Mafarro, o Pé-Preto, o Canho, o Duba-Dubá, o Rapaz, o Tristonho, o Não-sei-que-diga, O-que-nunca-se-ri, o Sem-Gracejos... Pois, não existe! E se não existe, como é que se pode se contratar pacto com ele?

Quem muito se evita, se convive.

Julgamento é sempre defeituoso, porque o que a gente julga é o passado.

O que lembro, tenho.

Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende.

Quem mói no asp'ro não fantaseia.

Quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a idéia e o
sentir da gente.

Vingar... é lamber, frio, o que outro cozinhou quente demais.

Quem sabe do orgulho, quem sabe da loucura alheia?

Ser chefe — por fora um pouquinho amargo; mas, por dentro, é risonhas flores.

Um chefe carece de saber é aquilo que ele não pergunta.

Comandar é só assim: ficar quieto e ter mais coragem.

Toda saudade é uma espécie de velhice.

Riu de me dar nojo. Mas nojo medo é, é não?

Um sentir é do sentente, mas outro é do sentidor.

Tudo é e não é.

Mocidade é tarefa para mais tarde se desmentir.

Sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado!

O sertão é do tamanho do mundo.

Sertão é dentro da gente.

O sertão é sem lugar.

O sertão não tem janelas, nem portas. E a regra é assim: ou o senhor bendito governa o sertão, ou o sertão maldito vos governa.

O sertão não chama ninguém às claras; mais, porém, se esconde e acena.

O sertão é uma espera enorme.

Sertão: quem sabe dele é urubu, gavião, gaivota, esses pássaros: eles estão sempre no alto, apalpando ares com pendurado pé, com o olhar remedindo a alegria e as misérias todas.

A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero.

A vida é muito discordada. Tem partes. Tem artes. Tem as neblinas de Siruiz. Tem as caras todas do Cão e as vertentes do viver.

Manter firme uma opinião, na vontade do homem, em mundo transviável tão grande, é dificultoso.

Viver — não é? — é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver mesmo.

Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães...

Feito flecha, feito fogo, feito faca.

Vi: o que guerreia é o bicho, não é o homem.

Até que, um dia, eu estava repousando, no claro estar, em rede de algodão rendada. Alegria me espertou, um pressentimento. Quando eu olhei, vinha vindo uma moça. Otacília. // Meu coração rebateu, estava dizendo que o velho era sempre novo. Afirmo ao senhor, minha Otacília ainda se orçava mais linda, me saudou com o salvável carinho, adianto de amor.